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Etelvina Alencar, ou também, uma das muitas coisas que nunca soube sobre a minha terra enquanto vivia lá

Recentemente li a resenha de um livro que tenho muito interesse: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie e me deparei com algo familiar, mas que ao mesmo tempo não tinha nada haver com o contexto do livro. A resenhista, na oportunidade, destacou o fato da protagonista da história semi-biográfica só se percebe como uma pessoa negra ao chegar nos Estados Unidos.

Relembrando este texto me recordei de um seminário que assisti sobre o movimento do Orientalismo na China e em como o contato com o mundo ocidental possibilitou aos chineses descobrirem que eles eram como um povo. Em um movimento semelhante, ano passado um dos colegas japoneses intercambistas na turma de produção textual leu um texto seu onde falava sobre a descoberta do que era ser japonês ao deixar o Japão. Ao vir para um lugar tão distante, onde todos os asiáticos são tratados como uma coisa só, na maioria das vezes ("nós não somos chineses", disse na ocasião).

Todos esses exemplos conversam com a minha própria experiência: sou uma amazonense que vive à quase oito anos no Rio Grande do Sul. Como a maioria dos amazonenses sempre tive a visão de que nossa terra é era algo inferior em relação ao sudeste e sul (Sul? Que coisa chique!). Não estou dizendo que não existam manauaras orgulhosos, mas é fato que ninguém sabe cantar o hino da cidade, e raros são os que lembram além do refrão do hino do estado (um hino lindo, por sinal).



Caí de paraquedas em uma cultura oposta à minha: aqui as pessoas são orgulhosas, falam de boca cheia que são gaúchas. O movimento nativista é forte, com competições de CTGs (Centro de Tradições Gaúchas) e muita música tocada para lá e para cá. Com certeza existem porto alegrenses que não dão bola para isso, mas aqui todo mundo canta o hino do estado como se fosse a canção de exaltação da própria alma (ainda que eu ache a melodia e ritmo menos interessante do que o do Amazonas).

Mas estou aqui divagando para falar um pouco sobre Santa Etelvina, uma figura que faz parte do folclore popular de Manaus e sobre a qual eu jamais tinha ouvido falar até ler uma reportagem contando sua história no portal "No Amazonas é Assim" (aliás, pessoal, o site de vocês não tá funcionando no Explorer aqui no serviço, acho que tem que ver isso aí).

Etelvina de Alencar foi uma jovem brutalmente assassinada por um ex-namorado enlouquecido. Sua história tem tudo para dar um thriller dos melhores. O amor fraco, não correspondido; A loucura da mente do rejeitado, que acredita piamente que Etelvina possui três namorados e por isso rompera o compromisso; a aquisição da arma; o ataque devastador de um homem enlouquecido e, por fim, a morte desesperada de vítima e matador.

Créditos da imagem: Portal G1

Poderia realmente fazer uma recontagem dessa história, de tão interessante que me pareceu, mas o que importa é que essa história ficou marcada na imaginação do povo amazonense. Existe um bairro em Manaus com seu nome e seu túmulo é local de visitação no cemitério municipal. A santa não-canonizada é chamada também de Santa dos Estudantes, por motivos que provavelmente derivam de milagres atribuídos à ela em soma com o fato de ter sido morta quando ainda tinha apenas 17 anos.

Enfim, descobrir Etelvina (que nome mais familiar!) é algo que me fez perceber de maneira ainda mais forte o que já me era fato: nunca conheci minha terra e nunca tive interesse por isso enquanto estava lá. Vivo boa parte da minha vida como uma pseudo-imigrante que parece não ter nada seu para oferecer à terra que me acolheu de bom grado. Se o povo gaúcho me ensina eu também deveria ensinar-lhes algo, mas essa preocupação também pouco me ocorreu.

Mas tudo muda e hoje em dia essa é uma preocupação constante e crescente. Me arrependo de não ter pesquisado mais enquanto estava lá. História, folclore, geografia, os inúmeros povos indígenas. Tantas coisas que tenho vaga ideia, quando poderia saber muito mais. A preocupação ambiental, da economia sustentável me parece um problema bem mais grave agora que estou tão longe para saber o que está sendo feito lá à esse respeito.

Porém quando procuro na mídia comum sobre o que acontece lá o que encontro é praticamente nulo. É tudo São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Brasília. Existe o tal Nordeste, tratado como uma massa disforme pela mídia centro-sul (o que também é uma droga), mas o Norte, bom. . . De vez em quando existe o Pará, mas o Amazonas só é manchete quando tem uma cheia descomunal, como a deste ano já se mostra.

Não conhecia Santa Etelvina até hoje, assim como desconheço milhares de outras coisas sobre minha terra por pura desvalorização minha na época que vivia lá. Sei que muitos amazonenses pensam como eu pensava e só conseguem dizer que "aqui é terrível". Os que não dizem, que são poucos, também não ajudam, pois só dizem "Amo o  Amazonas!" à gritos que não se sustentam com argumentos. Só lembramos que nossos políticos são os mais corruptos o possível, que estamos deixando destruir a Floresta e que nunca passou pela nossa cabeça aprender Nheengatu.

Este texto não tem uma resolução legal. É um problema. Apenas uma ponta de um buraco cultural que faz do lugar que poderia ser a esperança de um planeta sustentável a fonte de muitas coisas incríveis que ninguém conhece.



Comentários

  1. Hino melhor que nosso? impossível! kkkkkkkkkkkkk

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    1. Hahahahahahaha, questão difícil de decidir ein. Ninguém é imparcial.... XD

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