Pular para o conteúdo principal

[Perfil] Itoshiki Nozomu - o senhor do desespero

Dentro da ficção é comum que os personagens possam ser rotulados pela sua principal característica, seja física ou emocional. Protagonistas costumam ser corajosos, às vezes inconsequentes, alguns ainda atrapalhados ou mesmo meio lerdos. Porém, são poucos os heróis que podem ser qualificados com a mesma emoção que nos vem à mente ao falar de Itoshiki Nozomu, o personagem central da série Sayonara Zetsubou Sensei:

Desespero.

Neste artigo vamos destrinchar os aspectos obscuros e nada saudáveis da caracterização deste marcante personagem que, junto a um elenco inesquecível, conseguiu transformar uma história de nonsense e terror em uma série de grande sucesso em várias mídias.

Histórico




Nascido em uma família abastada, Itoshiki Nozomu é o terceiro filho de um senhor de imenso poder em uma província (não nomeada na série) do interior do Japão. O peso da tradição de sua família fica bastante evidente na sua maneira de se vestir e em seus pensamentos que muitas vezes parecem retrógrados.

Apesar de ser apresentado como um jovem homem que tem certa fixação na morte, em certo ponto da trama somos apresentados para um possível passado de Nozomu, no início do seu Ensino Médio, quando ele era um rapaz feliz e cheio de esperanças para o futuro. Sua vida foi mudada radicalmente graças ao seu encontro com um grupo peculiar de rapazes que adotavam o pessimismo absoluto como forma de encarar a vida.

Fora essa, existem ainda algumas informações sobre as relações familiares dos Itoshiki, além de uma trama própria apenas para apresentar o "Ritual de Casamento Tradicional da Família Itoshiki" (que consistem em: se duas pessoas se encararem durante o período de doze horas desse ritual, as pessoas estão automaticamente casadas). Mas pouco se comenta sobre a relação do rapaz com os pais ou irmãos, sendo uma das poucas pistas é dada no capítulo referente aos segredos que não se contam aos pais, representados pelo nascimento do dente do siso. Neste capítulo percebe-se que há um distanciamento de Nozomu com o pai, mas que o mesmo é agravado por atitudes de outras pessoas, como o mordomo Tokita e a irmã caçula de Nozomu, Rin.

A vida de Nozomu, depois de tornar-se um homem desesperado teve seu ápice quando, sendo contratado pela escola local (que vive mudando de nome) e se torna professor da turma A-1. Uma classe que reúne toda a sorte de pessoas estranhas e problemáticas, algo que não poderia ser pior para um professor com dificuldades de lidar com seus próprios complexos.

Desespero! Estou desesperado!




A vida é algo sem sentido para Nozomu. Ele não busca amor, ou sucesso profissional. Seus dias se resumem a uma eterna lamentação enquanto ele caminha de lá para cá em seu cotidiano. Suas relações sociais, fora da escola, são inexistentes. Ele faz vários relatos de situações onde esteve em completo isolamento ou a beira de um final trágico para sua vida. Ainda assim, algo o separada da sua motivação de morrer. Esse fato pode ser resumido na frase que ele, sabiamente, exclama sempre que sua vida é colocada em perigo real quando ele não está esperando:

"E se eu tivesse morrido?!"

Fuura Kafuka, mocinha da trama é rápida em compreender que Nozomu, apesar de toda a negatividade, o Professor Desespero não é capaz de abrir mão do seu maior bem, que é a vida. Uma contradição evidente que demonstra a falta de franqueza com que o professor encara seus próprios sentimentos.

E é exatamente nesse conflito de valores que o desespero e a falta de reação diante da vida se tornam marcas pesadas de toda a personalidade do professor.

As "esposas" de Nozomu




Sendo o centro de uma classe povoada em sua maioria por garotas adolescentes, é mais do que natural que muitas delas o vejam como o seu modelo de homem ideal (por mais distorcido que isso possa parecer, se refletirmos sobre quem estamos falando). Ainda assim podemos destacar um grupo central de personagens com as quais Nozomu tem um contato mais frequente e que são também peças-chaves para a compreensão do enredo absurdo da série.

Fuura Kafuka (da qual falaremos em maior detalhe na seção que contém spoilers, demarcada visualmente no tópico à seguir), a garota super-positiva é a perfeita antítese da concepção de Nozomu. A interação dos dois é um dos pilares do começo da série, gerando uma série de situações cômicas e, até certo ponto, perturbadoras. Com o passar do tempo e o desenvolvimento de outras personagens também marcantes, Kafuka perde bastante do seu espaço, mas continua sendo um dos pontos de base para todo o desenrolar da trama.

Com Kitsu Chiri, a super-certinha, a relação de Nozomu é igualmente conturbada, mas em um sentido muito mais perigoso. Chiri é extrema para lidar com as coisas e não poupa esforços, ou se importa com o bem e mal, para que as coisas fiquem todas "adequadas aos padrões". Uma das personagens mais freak do elenco é também uma das que mais gera situações angustiantes ou mesmo fatais à Nozomu.

Tsunetsuki Matoi é a stalker da série. Completamente apaixonada por Nozomu é quem mais está presente em cena, pois está SEMPRE junto ao seu amado professor. Apesar de incomodado à início, rapidamente Nozomu simplesmente aceita e lida com naturalidade àquela invasão constante da sua vida e privacidade. Aliás, a capacidade de adaptação ao absurdo pode ser colocada também como uma das grandes "qualidades" do personagem.

Apesar de sempre tentar lidar com suas alunas problemáticas da maneira como um professor faria, Itoshiki Nozomu acaba sempre carregado para as reflexões e ações descabidas de suas estudantes. Uma relação que mantém o teor cômico da série constante, mas que também consegue adquirir tons dos mais obscuros, principalmente quando nos aproximamos do derradeiro final de SZS.

As sombras nos cantos da sala




Sayonara Zetsubou Sensei é um mangá que ludibria bastante o seu leitor durante seu desenrolar. Volta e meia somos presenteados com takes e sequências que parecem completamente fora da realidade e que em nada se combinam com o que as precede ou sucede. A intenção de causar confusão e certa agonia é levada à sério pelo autor, Kumeta Koji, e isso se aplica a todos os seus personagens, com a inclusão honrosa de Itoshiki Nozomu.

Atenção, neste ponto vamos dar SPOILERS MASSIVOS do final de Zetsubou Sensei, se você não leu ou não conhece os fatos, sugiro que pule toda essa parte do texto a seguir, demarcada com coloração diferenciada e com um alerta visual do término.

*SPOILERS*
Adentrando um pouco nas teorias mais sombrias sobre essa série, possíveis em grande parte graças às revelações aterradoras do último volume de SZS, temos o fato de que Nozomu na verdade é uma alma partida, graças à perda precoce da jovem que ele julgou que seria o amor de sua vida. E, sim, estamos falando de Fuura Kafuka, ou melhor, ??? Ai, jovem super-positiva e feliz pela qual o jovem Nozomu fora apaixonado e da qual se separou forçadamente graças a um acidente de trânsito.

Tomado pelo desespero dessa perda, que também afetou a sanidade do rapaz, Itoshiki foi então introduzido em uma encenação que se tornou sua vida real: a escola, suas alunas e a existência de uma jovem chamada Fuura Kafuka, que na verdade nunca existiu além da imaginação perturbada de todos os envolvidos no caso. Um ambiente moldado para deixar mentes conturbadas unidas em um único lugar, sem mais causar mais à si ou à sociedade.

Sem entrar nos detalhes de como a "possessão" do espírito de Ai aconteceu nas ditas estudantes (que na verdade eram outras pessoas profundamente perturbadas, unidas naquele experimento de realidade surreal), podemos perceber que toda a irrealidade presente nas passagens bizarras de Sayonara Zetsubou Sensei nada mais são do que os delírios, cada vez mais absurdos, da mente já tão distorcida do jovem Nozomu. Um fato que, junto aos outros pontos dessa revelação grotesca de enredo, é capaz de despertar um profundo sentimento de desespero real no leitor quando se chega ao final fatídico, e igualmente insano, da série.

*FIM DOS SPOILERS*

Conclusão

Desesperado, frustrado e incompreendido. Itoshiki Nozomu é uma figura complexa que consegue ser retratadas das formas mais tragi-cômicas e caricatas dentro da série Sayonara Zetsubou Sensei. É uma figura de fácil reconhecimento visual e que tem um vocabulário próprio, cheio de personalidade. Um personagem de valor e que trás muita qualidade para a veia dos mangás voltados para as comédias trágicas.

A ironia dos pensamentos de Nozomu são capazes de despertar os mais diferentes tipos de reflexão no leitor/expectador, basta que se esteja minimamente atento para o que realmente ele e sua trupe de alunas loucas estão de fato mostrando diante de nossos olhos. E ainda que suas críticas à sociedade japonesa (e, em parte, à toda a humanidade) sejam feita em tom de exagero ou sarcasmo autoral, muito do que Itoshiki Nozomu diz é de fato correto, em termos factuais. Seja falando da sociedade "viciada em números", da necessidade de "viver de acordo com seus limites" (e quebrar esses limites), ou seja expondo a hipocrisia da sociedade nipônica quanto à aspectos relevantes como a imigração ilegal e pedofilia.

Tanta força também se torna um peso negativo para o autor, que acaba ficando eternamente vinculado à imagem do seu grande protagonista. Isso tanto é verdade que, até então, o trabalho subsequente de Kumeta Koji, Sekkachi Hakushaku to Jikan Dorobou, não conseguiu alcançar o estrelado merecido, em parte pela sombra imensa que Itoshiki Nozomu deixou para seu novo protagonista.

De todo modo, não há como ignorar toda a excelência de Kumeta para criar um grande personagem, de características quase integralmente negativas e mesmo assim capaz de deixar sua marca na massa de aficionados por sua obra-prima.

Grande feito de Kumeta. Feito ainda maior do desesperado Nozomu.


Fontes:
Volumes 1 e 2 da edição japonesa de Sayonara Zetsubou Sensei (acervo pessoal)
Animações Sayonara Zetsubou Sensei (2007), Zoku Sayonara Zetsubou Sensei (2008), Goku Sayonara Zetsubou Sensei (2008/2009) e Zan Sayonara Zetsubou Sensei (2009) - todas pelo estúdio  SHAFT.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UQ Holder - o novo mangá de Ken Akamatsu começa com tudo!

A estréia de UQ Holder, nova obra de Ken Akamatsu se deu no mês de agosto deste ano de 2013 e foi cercada de grande expectativa: desta vez o mangaká tinha a intenção clara de fazer um mangá de ação desde o princípio.
Talvez no Brasil o trabalho de Ken Akamatsu não seja tão reconhecido quanto poderia. Sua imagem é muito marcada pelos fanservices de Love Hina. Muitos sequer chegaram a ler sua obra seguinte e de maior sucesso comercial: Mahou Sensei Negima. O plot de um menino cercado de 31 garotas também ajudou a aprofundar o preconceito de leitores que (no meu ver pessoal) parecem valorizar demais a sexualidade nos mangás, esquecendo de analisar outros aspectos como a comédia, e, principalmente, a qualidade dos personagens.


Ken Akamatsu é um mestre em criar personagens cativantes e Negima foi um grande sucesso quando conseguiu mesclar a comédia, esses personagens apaixonantes e uma dose de ação crescente. Lutas muito bem desenhadas estão nas páginas da obra de forma cada vez mais cons…

Sobre o que fala Suzumiya Haruhi, afinal?

Suzumiya Haruhi é uma série de light novels que já conta com 10 volumes e o suspense se irão haver novas publicações ou não. A história ficou mais famosa quando se transformou em anime e então a franquia caiu no gosto do público otaku pelos seus clichês cômicos, personagens carismáticos e uma dancinha viciante para viralizar. Porém muitos acabam julgando que a obra não passa de um entretenimento barato para otakus e que não possui nenhuma mensagem intrínseca. O que é um erro e eu vou dizer o motivo:

Qualquer obra, por mais comercial e batida que seja, pode conter em si uma mensagem, talvez supérflua, talvez profunda, mas não é por causa de questões visuais ou estilísticas que deve ser ignorada essa possibilidade.

Vou citar um exemplo de conhecimento mais comum no mundo do entretenimento para deixar mais simples o entendimento.

Matrix, o filme de 1999, é uma história louca sobre pancadaria alucinada entre realidade e mundo digital? Bom, essa pode ser a cara do filme, com seus efeitos …

Comentários sobre Planetes v.1

Olá a todos!
Esse ano de 2015 tem sido muito bom para leitores de mangá que também são leitores de ficção-científica. Grandes anúncios como Akira e o relançamento de Eden (ambos pela Editora JBC) são alguns dos principais nomes desse momentos, mas outros títulos de peso também chegaram às bancas. Esse é o caso de Planetes, mangá de Mokoto Yukimura, autor também de Vinland Saga (ambos publicados pelo selo Planet Mangá, da Panini).
Comentários sobre a trama



Em um futuro próximo, onde o desenvolvimento da exploração espacial já torna possível a construção de estações e bases em alguns pontos do Sitema Solar, em Planetes acompanhamos a vida de Hoshino Hachirota (ou "Hachimaki", como lhe chamam), um jovem astronauta que tem uma das funções de menor glória: lixeiro espacial. Um trabalho exigente e necessário, mas que não é dos mais gratos.
Temos, além de  outros dois tripulantes na nave Toy Box: Yuri Mihairokov, um russo que tem um motivo bastante distinto. Além deles temos a pilo…