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Uma reflexão pessoal sobre os quadrinhos brasileiros

Há uns bons anos atrás, no início dos anos 2000, os mangás começavam a chegar nas bancas. Era o começo de um mercado que só cresceria a partir dali.

Naqueles tempos minha mãe me comprava não apenas os volumes de Love Hina, ou Gundam Wing, mas também outros gibis que acabavam me chamando muito atenção por serem feitos por brasileiros.

Combo Rangers, as coletâneas como a Desenhe e Publique Mangá, além de outros que não entravam tanto no meu gosto pessoal (como o Pequeno Ninja Mangá ou o Psi-Force). Eu acabava comprando todos que pudesse, seja para conhecer, porque tinham preços acessíveis, ou porque realmente gostava. Eu mesma desenhava minhas histórias, ou gravava “cds drama” pra lá de improvisados, colocando em áudio as histórias dos CR. Era uma época bacana, esperar por uma nova edição, mesmo quando a distribuição não ajudava por eu morar bem longe dos grandes centros do país.

Só que, um dia, acabei percebendo que nenhuma dessas edições chegou mais.

Talvez por ser muito nova na época, mas fato é que eu poderia ter entendido desde aqueles tempos o que havia acontecido, graças a um artigo presente no final de uma revista de animes da época (agora já nem me lembro qual era a publicação) onde falava da provável inflação do mercado de mangás que iria ocorrer graças a crescente avalanche de novos títulos.

Se os mangás iriam sofrer com a tal fragmentação do seu público ainda crescente, o que seria então dos gibis brasileiros? Bom, o tempo mostrou bem o que aconteceu: eles desapareceram das vistas dos compradores de banca.

Depois disso se passam alguns anos para que essa história recomece. A popularização da internet, lenta e cara, começou a dar  novas possibilidades para que as publicações de autores brasileiros começassem novamente a poder se espalhar por este país de extensões enormes.

Quanto a mim, por ter um pensamento classicista demais quanto aos meus desenhos, acabei deixando de produzir minhas histórias quando terminei a escola. Foi por um curto período, pouco mais de três anos, mas ainda é um tempo que me arrependo de ter fechado os olhos e ouvidos para a coisa.

Foi aí que surgiu a revista que, na minha vida, só trouxe de bom o fato de me estimular a entrar em contato de novo com quadrinhos brasileiros: A Ação Magazine.

Eu poderia gastar uma milhagem inteira de frases para falar de todos os fatores que eu enxergo na falha empresarial do projeto da Ação, mas não é para isso que estou escrevendo este texto. Eles podem ter falhado como empreendedores, como marqueteiros, empresários, enfim, mas tiveram pelo menos um trunfo: reaquecer os ânimos a muito apagados dos artistas.

Atualmente temos vários projetos (virtuais ou físicos) de quadrinhos de todos os lados. Até mesmo a JBC deu um pequeno espaço para essas produções com o Brazil Manga Awards. E cá estou fazendo “a minha parte”, apoiando projetos que acredito que ainda podem render algo bom, como a Conexão Nanquim. Apoiando veementemente bons trabalhos (como Ledd, Sigma Pi ou o trabalho da Editora Crás) e observando outros projetos que não me agradam tanto como leitora, mas que fazem bem em continuar batalhando (esse é melhor não dar exemplos).
Meus olhos agora são mais maduros, mais críticos e capazes de refletir sobre os diferentes fatores que entram nessa equação. Muita coisa ainda precisa melhorar e nada está seguro para os gibis brasileiros. Ainda existem muitos autores promissores que param de produzir, seja por fatores econômicos, pessoais, ou por simplesmente não saber dirigir bem a própria carreira.

Dando meu palpite de consumidora e pensadora sobre esse tema, eu diria que talvez os jovens quadrinistas brasileiros estão se espelhando no mercado errado para produzir. Grande parte desses artistas que produzir pensando em transformar o Brasil num grande mercado consumidor mainstream, aos moldes do mercado japonês. Com antologias, ou volumes compilados vendendo em bancas e livrarias.

Junto a minha voz a todos os que já dizem isso por aí: o mercado brasileiro nunca vai ser um Japão, ou França, ou Estados Unidos.

Talvez seja meio difícil de entender meu ponto, mas acredito que deveriam se espelhar mais no mercado nipônico sim, mas no mercado indie, dos doujinshis. Não querendo com isso me referir a toda sorte de apelação que os autores de doujinshi usam para vender, mas sim no formato que utilizam. Publicações de até 50 páginas, publicações constantes, organização em feiras de venda desse tipo de quadrinho, tiragens bem modestas que são tiradas dos bolsos dos próprios autores. Um pequeno mercado, auto-sustentável, que pode produzir tantos autores que as editoras poderão selecionar entre um vasto leque de opções, quem irá dar uma chance.

E não ter que escolher os mais passáveis.

Os jovens quadrinistas tem muito à aprender observando o mercado literário brasileiro. Não que este já esteja em um patamar tão elevado, mas com certeza está muitos degraus acima do que galga a passos sofridos os quadrinhos. Mais maturidade, mais seriedade, profissionalismo (que não necessariamente se refere à qualidade de arte) e persistência são necessários nessa jornada.

E, claro, tirar da cabeça a fantasia de que dá pra viver só de arte autoral no Brasil. Mesmo na literatura só uma pequena percentagem dos autores vive apenas desse labor. Fazer arte pelo dinheiro, neste país, é a maior besteira que se pode querer.

Quanto a mim, bom, meu perfil do Blogger é bastante preciso quanto a isso. Sou uma escritora e pseudo-quadrinista. A primeira forma de contar histórias que utilizei foram os desenhos sequenciados e isso ainda é algo que me diverte muito em fazer. Não tenho ambição alguma de fazer girar essa roda a não ser consumindo e espalhando esse pensamento para o máximo de pessoas que puder. Vou estar sempre produzindo minhas histórias e desenhos, mas só pelo fato de ser impossível para mim não o fazê-lo.

Enfim, esse é um texto opinativo, reflexivo, que contém apenas os fatos e entendimentos que tenho, levando em consideração meu conhecimento empírico do assunto. Já faz algum tempo que venho dando mais espaço a este assunto no blog e talvez essa tendência só venha a se prolongar agora que vou colocar as mãos em alguns trabalhos novos. Vamos torcer para que essa “ondinha” não acabe passando e sumindo, como foi a anterior.


Comentários

  1. Saudações


    Tenho alguns pontos de consideração sobre vosso texto. embora poucos, valem o estímulo.

    Antes dos anos 2000 já haviam ocorrido estas "oscilações" no mercado de quadrinhos brasileiro. Títulos e mais títulos surgiam nas bancas quase como uma epidemia, em especial durante os anos 80 do século passado. Buscavam atender um público, majoritariamente, infanto-juvenil. Tinham protagonistas e elenco de apoio à esmo. Mas, depois de um tempo (lá por 1996/1997), percebi que todos eles convergiam para o mesmo ponto falho.

    Tal ponto era a estória básica e similar, de trato ao andamento do enredo, sem mudanças e nem com a mínima vontade de sobressair-se, uma à outra. Cito-lhe dois gibis que eu gostava para tanto: "O Gordo" e "Patrícia". Ambos seguiam a mesma fórmula, sem exceção, só mudando um pouco o atenuante do foco graças aos seus personagens. Por volta de 1993 conheci o gibi "O Pequeno Ninja" e imaginei que ele fosse ser diferenciado (o que foi de fato até um certo ponto).

    O mercado brasileiro não possuía, como direi, a originalidade necessária que consigo enxergar como importante, hoje, para tão passada época. Mas era incrível notar como todos (eu não era exceção) gostávamos de acompanhar os gibis, chegando à comentar sobre os personagens com colegas e amigos na escola...

    Notou meu ponto, Mazaki? Tudo que tu falou possui um histórico muito mais emblemático do que a maioria das pessoas imaginam.

    Viver de arte é algo de risco não apenas no Brasil. Pessoalmente eu citaria, no máximo, dez Países do mundo nos quais uma pessoa pode se dar ao prazer de dizer que sua profissão é ser quadrinista (com o devido timbre de voz). A questão de análise (para mim) está em quantas pessoas, precisamente, buscam também sair da "bolha" em suas ações e devaneios de importância sobre a área em pauta neste texto. O que se almeja difere de um para o outro. E, possivelmente, a prova disto pode estar em sua citação sobre doujinshis japoneses.

    Eu acredito que esta ideia seja muito boa, de pronto. Mas aí entramos em outra questão, sendo esta pertinente à quantos realmente conhecem o significado em fazer um doujinshi e o que tal tipo de material representa. Para mim ou para você falar de doujinshi não é segredo, uma vez que acompanhamos a cultura japonesa (animes/mangás) já de longa data. E atualmente há o advento da internet que auxilia em uma pesquisa para quaisquer pessoas mas, ainda assim, lhe questiono (em minha mente) quantas pessoas aceitariam sair da já quebrada "bolha" (vide meu relato de gibis dos anos 80 e 90) para tentar atuar em um "novo direcionamento".

    Há uma potencialidade enorme de talentos à nível Brasil, fato. Mas buscar se fazer presente é o primeiro passo (poucos infelizmente fazem isso, razão pela qual me leva a admirar trabalhos como o "Sigma Pi" e, mais recentemente, o "Gliter Lovely"). Conseguir amparo com editoras e afins é o passo seguinte (e neste ponto vi o maior ponto negativo da por ti citada "Ação Magazine"), o que neste quesito já vale um ponto de reflexão para um futuro comentário à parte (que vai desde a adesão em publicar s obras estrangeiras no lugar de auxiliar os artistas nacionais e afins).

    O mercado que as pessoas almejam só existirá, de fato, quando as mesmas que o almejam seguirem em frente e dispostas à isso. Japão, França e Estados Unidos, mercados de quadrinhos/gibis/revistas por ti citados, são fortes e reconhecidos por seus méritos, ou seja (e provavelmente a uma leve exceção do Japão), tiveram seus inícios trabalhosos.

    Apenas para a reflexão de minha parte.


    Até mais!

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  2. - Dando meu palpite de consumidora e pensadora sobre esse tema, eu diria que talvez os jovens quadrinistas brasileiros estão se espelhando no mercado errado para produzir.

    Matou a charada!
    Pessoal tá tentando usar modelo de mercado internacional consolidado num mercado que mal perna tem!
    Não é por acaso que colecionamos revistas descontinuadas.
    E Mazaki, eu tenho pra mim que poderíamos ter um tipo de Comiket BR aqui, seria bom pra todo mundo.
    Não falo esses eventos estilo FIQ onde vão os quadrinistas independentes com suas histórias que só intelectual lê, mas algo mais popular.
    Talvez um dia... =(

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