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O "Paradoxo Love Hina"


Hoje proponho um exercício de imaginação para que possamos analisar um aspecto sutil e determinante para a formação da "opinião geral" sobre uma obra. Para isso vamos tomar como exemplo uma obra de grande difusão entre quem conhece algo sobre anime/mangá : Love Hina.

Utilizando esta série que é uma de conhecimento mais amplo do nicho nacional vou tentar explicar o "paradoxo" que acontece com a maneira crítica com que nos acostumamos a analisar novas obras que nos dispomos a conhecer. Uso aspas ao me referir a um paradoxo porque isto é somente uma explanação teórica que tem por objetivo a reflexão, não é ao pé da letra paradoxal.

O que é o esse "Paradoxo"?

Não há maneira mais rápida de explicar do que construindo uma sentença que demonstre a existência da aparente contradição. Eis ela:

"Se Love Hina fosse lançado hoje, seria um fracasso pelo fato de Love Hina ter sido lançado do passado"

O que estou querendo insinuar nisto (na verdade estou é realmente afirmando) é que, quanto maior o conhecimento sobre histórias de qualquer tipo (ficção no geral), torna-se mais difícil surgir algo que agrade pelo simples fato de "ser uma cópia" daquela obra. Nos tornamos "vacinados" àquele tipo de conteúdo. [Até onde isso é bom?]

Mesmo que surgisse um "novo Love Hina", ou seja, uma obra com todas a qualidades (e, porque não, defeitos) da obra de Ken Akamatsu, esta obra perderia muito, talvez totalmente, o valor para aqueles que já conhecem o Love Hina original, pelo fato deste existir.

Será que compliquei? Mas é exatamente isto o que acontece todos os dias. É o que alguns chamam de "bagagem", outros de "caramba, K-On! é uma cópia de Haruhi, só que com pseudo-música" e por aí vai.

E o "paradoxo" não se aplica somente a obras novas. É bem comum que, ao rever alguma obra que já se conhece a anos, as impressões sejam diferentes (até porque nos tornamos pessoas diferentes constantemente) e pode chegar a acontecer daquela obra perder sua qualidade aparente para a pessoa, pelo simples fato de ser clichê.

[Levando o exemplo de novo pra obra do Akamatsu-sensei - Mas como assim Love Hina é clichê demais pra você?! Não foi justamente com LH que você aprendeu o que eram esses valores que depois se tornaram clichê?!]

"Paradoxo" não é Nostaugia

O (pseudo)"paradoxo" é diferente do sentimento de nostaugia que se tem por uma obra (que também gera pseudo-teorias como este texto, o caso da "regra dos 15 anos"). Não é a memória feliz sobre uma obra que impede que outras semelhantes sejam aceitas, mas o fato de se comparar e o impulso de diminuir o valor de uma obra sobre a qual já se tenha uma bagagem de conteúdo semelhante, ou de más experiências anteriores com algo relacionado ao conteúdo.

Colocando em termos práticos:

"Não é como continuar gostando de CDZ pelas boas lembranças da infância, mantendo aquele sentimento imaculádo, a despeito das críticas. É o fato de que qualquer coisa posterior a CDZ que tenha elementos muito próximos, seja em gênero ou tema, a este passe a ter menor valor ou ser considerado 'clichê', 'ultrapassado' ou talvez, 'veneno' (por aqueles que desgostam de CDZ)"

Existe solução? Existe problema?

Não há de se chamar de solução, afinal o paradoxo em si não é um problema, é mais como uma "injustiça natural" causada pelo preconceito que a experiência gera no público, por tanto não é um comportamento imaturo, ou errado (como poderia? Estamos falando só de histórias e entretenimento).

Consumir uma obra de maneira crítica é necessário, mas talvez deva ser feito somente na segunda experiência. Se o expectador levar toda a sua gama de preconceitos e receios para o primeiro contato com uma obra, as chances de que esta consiga transmitir sua mensagem para ele diminui muito.

(Tomando meu exemplo pessoal. Eu sei que, se Love Hina fosse lançado hoje, eu iria pre-julgar e ver a obra com olhos semelhante que tenho a, por exemplo, Sora no Otoshimono e Kampfer. Eu simplesmente não daria chance para Love Hina me mostrar que, apesar do ecchi, o humor é muito bom e os seus personagens são muito carismáticos).

A motivação de levantar esta questão subjetiva e estranha é que esta maneira natural de reagir perante algo novo pode ser um dos fatores para que obras de qualidade, ainda que não extraodinárias, mas agradáveis, não consigam passar os seus pontos positivos, que estão ali misturados às informações das quais o público pode estar farto de tanto ser repetido.

(Obras que me fizeram refletir até chegar a estas formulações foram, por exemplo, Sora no Woto e Angel Beats.)

Negar o que as obras tem de mal estruturado ou colocado é tão prejudicial para a experiência pessoal com um enredo quanto não se permitir discenir aquele aspecto positivo ou inovador de fato, graças a essas partes saturadas da composição geral.

(Ando acreditando que tem muita gente confundindo 'ser crítico' com ser capaz de apontar o máximo de dados técnicos e de defeitos em uma obra, ou pior, como ser capaz de proferir a maior quantidade de elogios vazios e padronizados).

P.S - Antes que comecem as chuvas de críticas, vamos prevenir algumas lembrando que devemos sempre ter em mente que qualquer análise só é possível de ser realizada de forma concreta se for pelo ponto de vista ocidental, pois esta é a nossa mentalidade e o que conseguimos compreender [se você acha que realmente entende todo o significado real das obras japonesas, sinto muito, mas somos intrometidos dando nosso próprio significado a essas obras].

P.S 2 - Perdoem a preguiça de colocar imagens, mas viver sem internet gera essa falta de tempo editando no blogger xD

Comentários

  1. Saudações

    Interessante verificar que o dito´[paradoxo] está presente ede forma constante, na mente de cada pessoa. No caso de nós, blogueiros, o mesmo é intenso de uma forma que ninguém nota facilmente...

    Nostalgia é algo bem diferente e, deveras, bem menos complexos do que definir o [paradoxo] como um todo.

    Me coloco como exemplo disto diretamente, pois o meu top de animes (ideia base) é basicemnte o mesmo há tempos, independente do período ou da época.

    Esse texto é muito interessante, e poderá render uma boa troca de ideias.

    Ótimo trabalho, Mazaki.


    Até mais!

    ResponderExcluir
  2. É bem assim mesmo. Como o fato das pessos julgarem o fato de EVA ser considerado um clássico propulsor de um estilo, sem levar em conta o momento em que foi lançado.

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  3. Ótimo post. [Sim,notei que você atualizou].

    O mais curioso é que eu sou da época em que Love Hina foi lançado, e acho o mangá hiper engraçado.

    E é verdade o que você disse, se fosse lançado hoje, ninguém notaria porque é "echi", fanservice e blá blá blá. Sim, mas, sabe que as pessoas que criticam já chegaram a considerar animês com visível potencial "echi" como algo bom? É aquela história de não ser como os outros...(eu estou de olho).

    Enfim, o problema nem é esse que falei. Mas, a forma como criticam as coisas ultimamente. É muito rígida e fincada em parâmetros técnicos, em determinada produtora, diretor,etc. É quase como se certo animê estivesse no banco dos réus, e o sujeito tivesse uma ficha com os antecedentes criminais para julgar. É estranho. Eu acredito que, ou se gosta de uma coisa ou não. Se não aprecia algo,deixe de lado. Mas, não tente provar por que você não gosta utilizando motivos pífios.

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