quarta-feira, 31 de agosto de 2011

[Perfil] Sakura Kyouko - fazer o bem nem sempre é bom

Atenção: Este texto é altamente recomendado àqueles que já assistiram ou leram a série "Mahou Shoujo Madoka Magica" pois contém detalhes da trama à cerca da personagem citada no título e refere-se a elementos que são melhor entendidos porque já conhece a história.

Muito já se falou, fala e ainda será dito sobre Mahou Shoujo Madoka Magica. Como afirmei na minha ( puramente emocional) postagem ao terminar de ver a série (Madoka Magica - o Fim) a experiência de acompanhar essa obra me marcou muito mais do que outras como Evangelion ou Serial Experiments Lain (outro dia falo sobre como o fator externo é importante no conceito de cada um sobre algo). Vou continuar afirmando que a série é um novo grande marco na indústria da animação japonesa e, convenhamos, ainda que isso não se confirme, não vai diminuir o valor que causou a cada um que apreciou a intrincada trama até o fim.

Hoje vamos destrinchar um pouco sobre a personagem mais cabeça quente da série. Uma verdadeira birrenta que, assim como as outras, mostra com o desenrolar do enredo que tem muito mais em si do que se esperaria de um character design tão fofo e meio - Sakura Kyoko.



Histórico

Kyouko se tornou uma garota mágica desejando que seu pai, um religioso que estava em crise pela perda gradativa de fieis, fosse escutado e entendido por todos aqueles que ouvissem sua palavra. Um pedido nobre e inocente de uma filha que acreditava no bem da fé que seu pai pregava e que também detestava vê-lo abatido. Assim ela começou, como diz, a "fazer o serviço sujo pelo bem das pessoas", realmente acreditando que a intenção de seus atos os fariam ser nobres.

Mas, como tudo em Madoka Magica, ela foi chocada com a dura realidade quando seu pai descobriu sobre seus poderes e seu pedido, enlouquecendo por completo, por não sentir-se mais capaz de levar boas palavras para as pessoas, porque estas seriam enfeitiçadas a acreditarem nele. No fim ele acabou cometendo suicídio, não antes de tirar a vida da esposa e da filha mais nova, irmã de Kyouko.

Ainda que a ruiva revele estes fatos para Sayaka para fazê-la compreender que o desejo e os poderes de uma garota mágica devem apenas ser em favor de si mesma, a mensagem clara que ela passa é sobre como não temos como determinar a consequência de nossas vontades, principalmente quando elas afetam a outras pessoas. Este é um momento de completa desconstrução tanto dentro do gênero mahou shoujo quanto do estereótipo de "tsundere de bom coração" que Kyouko representava.

Estúpida demais ou apenas inocente?



Temos duas visões sobre quem era Kyouko, a visão amargurada da própria, que narra para Sayaka sobre sua "estupidez" ao ter realizado um desejo sem medir as consequências e de ter lutado por um bom tempo acreditando em valores como "justiça" e "bem maior" (ela demonstra claramente na série como tem aversão a esses valores ou qualquer coisa que dê significado melhor às garotas mágicas, o que aliás é seu grande ponto de conflito com Sayaka, que ela vê cometendo os mesmo "enganos" seus do passado). Mas a análise dos acontecimentos, tomando como principal fonte o "Farewell Story" mais uma vez, nos faz perceber melhor sobre esta questão.

Não existe informação oficial sobre a idade exata em que Kyouko tornou-se uma garota mágica, mas todos os fatores apontam que ela era realmente muito nova. Levando em conta as "pistas" contidas no Cd Drama "Farewell Story", onde conta como, mais de um ano antes do ponto onde se inicia a trama da  "Madoka" (e aparentemente estamos falando realmente desse 'ciclo' de enredo), Kyouko e Mami tornaram-se amigas e, também as imagens do flashback durante a narração na igreja abandonada, onde os (realmente muito) longos cabelos da personagem ainda eram pelo meio das contas e a estatura bem abaixo da que tem durante "Madoka", os fãs supõe algo em torno de onze ou doze anos.

Apenas uma filha que desejava ver seu pai feliz, que deixou-se levar pela possibilidade de lutar por algo maior e bom. A ilusão do conceito de "garota mágica" que rege toda a série.

A voz



Kyoko é dublada por ninguém menos do que Ai Nonaka, conhecida e adorada pelo fandom de Mahou Sensei Negima por ser a eterna voz de Konoka Konoe. Ai Pon (como também é conhecida) sempre foi conhecida por fazer personagens com voz meiga e moe, o que refletiu muito em sua carreira musical também, com singles e albúns repletos de canções doces e "felizinhas". Ainda que declaradamente a seiyuu tenha tido na época da escolha o sonho de fazer papeis masculinos no teatro Takarazuka, apenas sua faceta mais fofa havia sido apresentada em seus trabalhos de dublagem.

Até Sakura Kyouko, é claro.

Mesmo que seu tom adocicado de voz seja facilmente reconhecível mesmo mesclado ao constante ar irascível de Kyouko, é com a desconstrução do estereótipo que vemos o diferencial do trabalho também na voz dada à personagem. Amargura e seriedade talvez ainda mais inesperadas por parte da voz de Kyouko são presentes desde a cena de flashback do seu passado. Uma crescente que agrada aos que não conhecem o trabalho da seiyuu e deixa de queixo caído aos seus fãs (tão ou mais impressionante que isso, só o trabalho magnânimo que faz Chiwa Saito com Homura).

Pra "fechar com chave de ouro" temos a canção que saiu junto com o quinto blu-ray da série, chamada "And I'm Home" onde Ai Nonaka faz dueto com Eri Kitamura (Sayaka, para alegria dos fãs). Um banho de talento, vamos admitir ;)

[nota: postarei aqui o vídeo, se houverem problemas de linkagem em algum momento, avisem-me que tomarei providências]






Agora falando da personagem.



Kyoko surge na trama como um estereótipo -  o da tsundere. Cabeça quente, de pouca discussão e muita vontade de resolver os problemas na base da luta, ela não surpreende de início.  Mas, como todas as garotas de Madoka Magica, Kyoko revela que tem muito mais história e conteúdo do que seu estereótipo poderia nos mostrar.

Uma tragédia familiar causada por sua ingenuidade e boa vontade. Um sentimento de compaixão que a faz tentar ajudar Sayaka (e também Yuma, no spin-off "Oriko Magica"), conflitando a primeira aparência passada pela personagem, que surge após o ponto de virada no terceiro episódio da série.

(Pensei em incluir aqui algumas das minhas teorias sobre detalhes de Madoka Magica que ajudaria a reforçar essas ideias sobre a ruiva, mas vamos deixar para algum momento mais oportuno.)

Os materiais posteriores da franquia "Mahou Shoujo Madoka Magica" tem sido muito benéficos para mostrar mais desta personagem. Em "Oriko Magica" ela e Mami (outra personagem com material extra em destaque) são figuras centrais, e assim a ruiva revela mais de seu bom coração e de seu caráter, motivada pelos fatos ao redor da pequena Yuma.

Amizades e inimizades



As personagens com quem Kyouko mais tem relação são Sayaka (na série principal), Mami (nos conteúdos extras da série principal e em "Oriko") e Yuma (também no spin-off).

Com Sayaka (apesar de toda a discussão que será levemente abordada no próximo subtópico) Kyouko tem uma rivalidde acirrada que rapidamente torna-se uma fidelidade imquebrável que culmina em momentos como a revelação do seu passado e, no final, o sacrifício que ela faz por ter "falhado em proteger quem precisava".

Já Mami, como fica explícito no terceiro cd drama da série, tem uma relação de veterano-novato com Kyouko, ajudando e ensinando detalhes sobre a sombria atividades das garotas mágicas (ainda que ambas soassem como ingênuas aos olhos de quem vê a série em retrospectiva).

Yuma é uma garotinha que perde os pais de forma violenta graças à ação de uma bruxa que por pena Kyouko acaba deixando perto de si, mesmo com diversos riscos que surgem graças a isso. A maneira como ela vê o sofrimento e choro da pequena dá a entender que ela a vê como uma mescla do que ela pŕopria passou com a irmã mais nova que perdeu. De fato, por diversas vezes em "Oriko" Kyouko age com um zelo enorme em relação à menina.

Pouco temos a oportunidade de ver a iteração da ruiva com Madoka (mais especificamente, somente no episódio nove da série), porém fica clara a facilidade com que as duas interagem, ainda que sejam aparentemente opostas (isso aliás se encaixa bem na teoria que citei antes! Mas, vamos manter o foco!). Também pouco vemos do seu relacionamento com Homura, ainda que as duas se tornem "aliadas" a certa altura do desenvolvimento, ainda que muita gente do fandom diga que elas são muito semelhantes, mais do que quaisquer outras duas das garotas mágicas.

E por falar em fandom. . .


O fandom sobre Kyoko



Ainda que a imprensa especializada neste mercado esteja muito mais focada no impacto de outras personagens - as protagonistas Madoka e Homura - se entrarmos um pouco mais afundo nas opiniões e discussões de fãs veremos a grande quantidade de admiradores dedicados a esta personagem profunda e cheia de facetas.

Claro que boa parte deste fandom adora nutrir sua visão especial sobre o relacionamento entre ela e Sayaka. Não é a toa que elas são um dos "casais canon" dentro do fandom yuri com mais destaque atualmente, ganhando uma quantidade enorme de material extra-oficial como doujinshis e belas ilustrações de seus admiradores (boa parte deles imensamente tocados pelos valores e sacrifícios ao redor das duas).


Imagem oficial que compõe o encerramento do nono episódio da série, na versão blu-ray


Ainda que Madoka Magica esteja recheado de momentos fortes e marcantes em relação a todas as personagens e muito mais em relação a Homura e a eternamente "fanserviced" Mami, Kyoko tem, não somente um grande espaço e visibilidade com o público, como também conteúdo o bastante para as mentes que mais apreciam realizar análises sobre personagens.


Fontes de referência - Puella Magi Wiki (uma wiki totalmente dedicada à série e todos os seus aspectos, com atualizações rápidas e diversas referências externas, além de agrupar dados e estatísticas valiosos para quem quizer entender mais do impacto da série)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Por que histórias populares não acabam?

A alguns meses atrás, enquanto fazia uma rotineira busca por algum anime mais antigo e interessante acabei escolhendo um que talvez surpreendesse quem pouco me conhecesse: Hajime  no Ippo. Foi amor a primeira vista, o primeiro anime de esportes que assisti e gostei (não, eu nunca vi Super Campeões) e, o que aliás foi o que me motivou para este texto - o primeira "história infinita" que me agradou sendo o que é.

Porque afinal histórias populares não acabam?


Há 22 anos, Ippo evolui sua carrega de, atualmente, 6 anos, no boxe.


Existem inúmeros pontos que se pode analisar sobre esta questão e o primeiro que ocorre à maioria é: "Oras, se vende o editor vai fazer a história continuar e continuar". Isso não deixa de ser verdade, mas eu gostaria de olhar a questão por outro ponto de vista:

Porque as pessoas gostam dessas histórias que não acabam? ("Aff, mas é óbvio que é porque as histórias são legais!". Mas ein?!). Só enfatizando *tiques nervosos* que estou fazendo isto como uma pessoa que gostam e analisar enredos, eu não tenho base em Psicologia ou Sociologia para vir com afirmações técnicas, pessoas com estes conhecimentos poderiam colocar isto de maneira bem melhor que eu.

(Até já li sobre essas áreas sim, mas também gasto um certo tempo pesquisando história antiga, Tolkien, Assembly, sobre os Anonymous, e mais coisitas que me tomam um certo tempo. Mas....)

Em frente.

Porque Negi, porque?


Hajime no Ippo, One Piece, Bleach e sua promessa de mais dez anos de mangá, Negima e sua mudança completa de tom graças aos consecutivos arcos de trama que vão sendo criados para que a saga do jovem professor-mago não chega ao fim. Não são poucos os exemplos de histórias que "são esticadas" ou "nasceram para nunca acabar" que vemos no mercado editorial de mangás japoneses. Existem aqueles até que se tornaram tão populares que tornaram-se, literalmente, eternos, como Detetive Conan. E quando a história não chega a este ponto, no mínimo ela acaba durando mais do que o previsto (olha a morte do L aí gente...).

Esse fenômeno não é nem um pouco exclusivo do universo do mangá, afinal temos a décadas e décadas os mesmo super-heróis americanos defendendo a justiça em universos paralelos, reiniciados, infinitos (e até mais). Uma tendência que inclusive já está chegando ao cinema e já é padrão no segmento de seriados, quando mais popular, mais temporadas.

Bom, agora poderia ser o momento que, como sou uma pessoa que prefere milhares de vezes uma história fechada em poucos volumes, ou poucos episódios animados, poderia começar a argumentar sobre à falta de elegância e técnica em relação à construção narrativa que vejo em grande parte dessas obras (Olha lá o ódio dos fãs de Toriko e One Piece!). MAS.... apoiando a campanha "odeio quem acha que ser esperto é só criticar (falar mal) de tudo"... vou ser menos extremista.

Uma história estendida infinitamente não é necessariamente pior do que uma obra fechada e sucinta, ou o oposto. São tipos diferentes de narrativa, que atendem necessidades diferentes, para momentos ou públicos diferentes.

Tudo depende do que o leitor/expectador procura e espera daquele entretenimento no momento.

"Eu teria vencido se o Editor não tivesse dito que haveria um segundo arco" (Será? É minha teoria XD)

Meu argumento para a popularidade das "histórias infinitas" é que esta fica estabelecida como parte da rotina semanal/quinzenal/mensal/anual do leitor, assim como as datas comemorativas ou um podcast . Temos essa necessidade contínua de entretenimento descompromissado e sempre presente. Ter uma história para acompanhar todas as semanas, tirando o leitor/expectador da sua rotina muitas vezes cansativa  (como é bem comum neste nosso século) é um prazer que agrada praticamente todos (não é só por falta de opção que as pessoas veêm novela todos os dias, elas gostam de sair da realidade todos os dias, mesmo que seja algo muitas vezes bem repetitivo ou clichê).

Pessoas que buscam experiências diferenciadas de maneira constante tem a tendência de fugir de histórias infinitas. São pessoas que valorizam os conceitos e mensagens que o ciclo dos atos inicio-desenvolvimento-final tem, que são por muitas vezes mais ousados e significativos do que "o que nunca termina". E é preciso lembrar que ter este gosto não torna uma pessoa mais "cabeça" e a outra "lesada". É simples questão de gosto, algo subjetivo.

(Pessoalmente, no meu caso é também porque eu estudo as histórias que me agradam, para retirar conhecimentos necessários para as tramas que escrevo. Viu? Algo puramente pessoal e não-exato.)

Mas mesmo essas pessoas (as metidas a inteligentes, como eu) não estão totalmente livres de apreciar uma história que não tem final, assim como inverso também é verdadeiro. Somos complexos demais para poder definir nossos gostos por um "eu só gosto do estilo tal, gênero tal, autor tal". 

Afinal, eu gosto bastante de Hajime no Ippo, apesar de não saber se terei paciência para acompanhar o mangá XD (Quem sabe se eu parar pra ler todos os capítulos duas vezes por ano somente, mas é frustrante pensar que não sei quando, ou se um dia, verei o final dessa saga).

Concluindo (Aiai, estou precisando melhorar minha "introdução de conclusão". É como se eu não conseguisse denotar só nas palavras que estou fechando o texto!)

Confesso que pensei em ler/assistir.... antes de ver a quantidade de capítulos/episódios!

Eu tenho *tiques nervosos* toda vez que tenho que dizer "na minha opinião" de maneira enfatizada, afinal isto é um blog, eu não estou escrevendo um texto acadêmico ou crítico, isto é um artigo de opinião. . . isso deveria ser óbvio. . . argh, vamos ao que interessa.

Histórias populares que nunca chegam ao final são necessárias dentro do mundo do entretenimento, tanto do ponto de vista comercial como vendo o lado do próprio público, ao meu ver (#aff) principalmente pela relação que estas estabelecem com a rotina do leitor/expectador.

Com certeza este tipo de história não é do meu grande agrado, sou aquele tipo que sempre desdenha de mangás como One Piece e Toriko, mas não nego sua importância. Fico pensando que o mundo seria bem mais "cor de rosa" se as pessoas soubessem defender seus pontos de vista, às vezes até de modo exagerado ou romântico, "sem pisar ou sentir-se pisado" (jura que alguém leva a sério quando eu digo que Toriki e Nichijou são a escória da animação japonesa? Ah, pra mim é mesmo e se você acha isso contraditório, pêsames).

Bom, conversando pelo twitter com várias pessoas também percebi que a outros pontos relativos a este tema que podem ser abordado, como sobre a visão e vida do autor no meio disso tudo, mas vou deixar isso para uma postagem futura.

Matta ne!

 
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